Relatos sobre o ovelheiro

Morro Redondo, 01 de março de 2011.

O OVELHEIRO GAÚCHO

Não os conheci antes dos meus quinze anos; embora na cidade, em Pelotas, sempre que se avistava um cachorro peludo, meio parecido com Collie, meus pais me diziam que lá ia um cruza com ovelheiro. Os cachorros da minha infância sempre foram de outras raças (Fox terrier, Dachund, Pincher miniatura) ou vira-latas e sempre ouvi as advertências “em cachorro não se mexe quando tá comendo” ou “não pega esse osso que o cachorro vai te morder” e não se mexia e não se pegava mesmo, nem as crianças nem os adultos.

Com quinze anos fui passar um tempo na fazenda do sogro do meu irmão, no município de Arroio Grande, aprendi a encilhar, a montar a cavalo e conheci os tais “ovelheiros”. Todos os moradores da localidade tinham pelo menos um, geralmente dois, quase sempre machos, mais raramente um casal, somente um tinha várias fêmeas.

Pois é, os tais ovelheiros eram pau para toda obra, juntavam gado e faziam apartes, ajudavam a tropear o gado e recolhiam as ovelhas, ajudavam a trazer os cavalos do piquete para a mangueira, davam sinal quando alguém ia chegando nas casas e ainda brincavam com as crianças. No mais estavam sempre quietos, deitados junto da porta da casa ou “cuidando” como se dizia, no caso de alguém ter deixado alguma cancela aberta e o gado ou os cavalos chegarem muito perto da casa, ai os cachorros davam um corridão sem pena, o que era bom, pois o gado sempre estragava algum enxerto ou árvore de fruta.

Daquela época para cá tenho conhecido muitos ovelheiros (já se vão 26 anos) e uma das coisas que aprendi (com a minha esposa), é que em ovelheiro se mexe quando está comendo e que se pode tirar o osso, inclusive de dentro da boca, pois jamais mordem ou avançam para o dono. São cachorros como outros não conheço, ativos no serviço e quietos, mas alertas, no descanso, extremamente mansos com o dono e sua família, companheiros inseparáveis. São ótimos para dar alarme quando chega um estranho, sendo que quando em grupo ( de pelo menos três) não deixam o estranho chegar à casa, cercando-o e latindo muito, sem morder, só parando quando o dono aparece e manda ficarem quietos, ai param e ficam cuidando. São os cães ideais, bons para serviço, companhia e alarme, pena que estão desaparecendo do Rio Grande do Sul.

No final do século XIX e início do XX as estâncias começaram a se modernizar, os campos foram fechados com cercas de arame, e alguns estancieiros mais ricos e estudados (Assis Brasil foi o mais conhecido, tendo inclusive construído um castelo no estilo europeu em sua propriedade em Pedras Altas) começaram a importar gado, ovelhas e cavalos de raça, com o objetivo de melhorar a produção pecuária de suas propriedades. A substituição pelas raças européias e no caso do gado, indianas também, foi tal que as raças ditas “crioulas” (selecionadas naturalmente durante séculos no Rio Grande do Sul e nos países do Prata) foram quase que extintas. O primeiro a se recuperar foi o cavalo Crioulo, tendo a sua excelência reconhecida já em 1932 com a criação da ABCCC. A ovelha Crioula foi resgatada na década de 90 num esforço da EMBRAPA Pecuária Sul e alguns criadores que acreditavam na excelência da raça. O gado Franqueiro foi praticamente extinto no Rio Grande do Sul e alguns poucos criadores do estado e de Santa Catarina lutam para evitar a sua extinção definitiva como raça.

Juntamente com as ovelhas e o gado europeu, foram introduzidas raças de cães destinadas a pastoreá-los. As mais conhecidas foram Collie, Smooth Collie (pêlo curto), Border Collie e Pastor Alemão. Desde 1820 são conhecidos os relatos de August de Saint-Hilaire (em Viagem ao Rio Grande do Sul) sobre a utilização de cães ovelheiros, em uma propriedade em Rio Grande, exclusivamente para guarda de rebanhos a campo. Posteriormente Hemetério José Velloso da Silveira, em seu livro As Missões Orientais e seus Antigos Domínios, narra que por volta de 1860, alguns criadores de cima da serra ainda se utilizavam de cães ovelheiros para guarda de rebanhos. Os capatazes e peões sempre tiveram seus guaipecas (cães sem raças e de pelo liso) para ajudar na lida com o gado (rodeio e apartes) e guarda da casa e terreiro.

Da cruza dos cães pastores europeus com os remanescentes dos antigos cães ovelheiros e com os guaipecas dos peões e capatazes, após décadas de seleção nas mais rudes lides campeiras, intempéries, exigências comportamentais e na falta de trato veterinário (por via de regra, é um cão que não recebe vacina, não conhece vermífugo e eventualmente é atirado dentro do banheiro do gado com um laço no pescoço para matar pulgas e carrapatos) surgiu o atual ovelheiro gaúcho.

O Ovelheiro Gaúcho nunca foi o cão do patrão, do dono da estância, para este, cachorro bom sempre foi o importado com pedigree europeu. O ovelheiro sempre foi o cão do peão e do capataz. Por isso, ainda hoje em dia, muito pecuarista ainda acha que tem Collie ou Border Collie em sua estância ou que não tem nenhuma raça de cachorro na propriedade, embora haja vários Ovelheiros Gaúchos.

A raça foi reconhecida no Brasil pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), após técnicos desta terem percorrido, em 1997, 12.000 Km  pelo interior do Rio Grande do Sul, examinando exemplares. A raça não é reconhecida internacionalmente por falta de criadores no exterior e pelo pequeno número de criadores oficializados no Brasil.

Embora a raça tenha sido reconhecida recentemente, o Ovelheiro Gaúcho já se encontra ameaçado. As principais causas são as seguintes:

– O hábito de presentear com um casal de filhotes, assim a pessoa que quer um macho acaba levando uma fêmea, isto acaba induzindo a acasalamentos consangüíneos, o que contribui para a degeneração física e comportamental da raça;

– O hábito de não acasalar as fêmeas, pois o animal com cria acaba ficando em torno de dois meses sem trabalhar, e isso nenhum campeiro quer, ainda mais se o cachorro for bom. Isto diminui muito a população de cães;

– A falta de cuidado durante o cio, o que faz com que muitas vezes cães que não sejam da raça ou que não são bons de serviço, produzam ninhadas que não sejam aproveitáveis.

– As dificuldades econômicas no meio rural fazem com que os peões acabem por diminuir o numero de cães para serviço, pois tem dificuldade para alimentar mais animais, o que leva à utilização de  machos apenas e a não acasalar as fêmeas. O que envelhece o plantel e diminui a população na região.

Estes problemas têm ocasionado com que em alguns locais já não existam mais Ovelheiros Gaúchos, indo os pecuaristas buscá-los longe ou ficando muito tempo sem um bom exemplar.

A fim de investir no resgate da raça, o canil Reculuta, de propriedade da Engenheira Agrônoma Élen Nunes Garcia, tem realizado uma seleção rigorosa, e a campo, do seu plantel, buscando exemplares em diferentes localidades do Rio Grande do Sul, fomentando a adesão de novos criadores e difundindo a raça através da divulgação e venda de filhotes a preços acessíveis. Afinal, o Ovelheiro Gaúcho é uma das raças mais completas, pois serve para serviço, companhia e alarme, é gaúcha, brasileira e adaptada as nossas condições.

 Eduardo José Ely e Silva
Engº. Agrônomo, Dr. em Biologia Animal
Criador de Ovelheiro Gaúcho

Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2003.

Tenho em mãos, com grande satisfação, o livro Viagens ao Rio Grande do Sul, Auguste de Saint Hilaire.Trata-se do cientista do século XIX, mais lido e apreciado pelos sociólogos e historiadores. No início daquele século fez inúmeras viagens ao interior do Brasil, dentre as quais esta no período de 1816-. 1822 São minuciosas suas anotações e ricos seus comentários sobre costumes, acidentes geográficos, cultura indígena.Sao suas as detalhadas observações pessoais sobre a cultura, o caráter do povo brasileiro, o solo, a agricultura e a pecuária.Este botânico francês que, com segurança descreveu plantas e animais nos leva a convicção de que o Cão Ovelheiro era uma raça existente nos pampas gaúchos àquela época, havendo, portanto, no mínimo uma seleção natural de dois séculos no pastoreio e guarda de ovelhas.

Em seu diário de 19 de setembro de 1820, está registrado que próximo à cidade de Rio Grande, precisamente no local denominado Arroio das Cabeças, no ístimo entre a Lagoa Mangueira e a Lagoa dos Patos, localizava-se a casa do Tenente Vieira.Era um homem possuidor de um grande rebanho de ovelhas, sempre solto no campo, mas guardado por cães Ovelheiros, nome este dado por um individuo do clero, o Abade Casal.

Segue-se o relato do tenente Vieira a respeito destes animais: _Toma-se um cachorrinho, antes de ter aberto os olhos, separa-se da cadela, força-se uma ovelha a amamentá-lo e faz-se um pequeno abrigo para ele no meio do rebanho.Os primeiros seres vivos que se oferecem as suas vistas são os carneiros, o cão se acostuma com eles, afeiçoando-se –lhes e tornando-se defensor espontâneo do rebanho, repelindo com coragem os cães selvagens e outros animais que o vem atacar.Acostuma-se a vir comer pela manhã e à tarde à estância.Nunca mais abandona o rebanho e quando os cordeiros se distanciam da habitação ele prefere passar fome a abandoná-los.

Vejam que espetacular relato a respeito do caráter do Ovelheiro Gaúcho, o homem moldou-lhe o temperamento forjando um exemplar caráter.

No diário de 27 de setembro de 1820, na Estância do Curral Grande, o botânico Saint Hilaire assim se expressou:- Ao voltar da herborização chamaram-me a ver amamentar cãezinhos destinados a ser ovelheiro.As ovelhas estavam presas em um curral.Pegaram uma delas, atiraram-na por terra, de lado, e dois homens mantiveram-na imóvel; em seguida puseram perto dois cachorrinhos que se lançaram às tetas chupando-as avidamente.Depois soltaram a ovelha e encerraram os cãezinhos em uma cabana no meio do curral, juntamente com alguns cordeiros.Fazem amamentar esses animais duas vezes ao dia e quando começam a comer há o cuidado de só lhes dar carne cozida a fim de que não apeteçam devorar os cordeirinhos.

Trata-se evidentemente de cuidados de educação destinados à moldagem do caráter, praticados há cerca de dois séculos para aprimoramento natural da raça.

Há testemunhos recentes de seleção natural.Após um primeiro documentário realizado por este autor em 1996, constatando a existência do Ovelheiro, a CBKC determinou em 1997 ao seu Diretor Cinotécnico Bruno Tauzs que juntamente com Milton José de Almeida realizasse uma pesquisa mais elaborada sobre a raça.Tal trabalho resultou em doze mil quilômetros percorridos no interior do Rio Grande do Sul e um documentário em vídeo não só desta raça como também de outras existentes nas estâncias e cabanhas do Rio Grande do Sul.

Vamos registrar aqui alguns relatos verbais de Milton Almeida de fatos ocorridos durante e após este notável trabalho de pesquisa sobre raças brasileiras.-Certo dia acordamos no galpão de uma estância com um ganir de um cão, era de agonia e nos apressamos em sair para verificar de que se tratava.Nos deparamos com um ovelheiro sendo enforcado com um fio de aço.Sua culpa:- havia mordido ovelhas.

Desvios de caráter e desobediência até hoje não são tolerados pelos que utilizam o trabalho do Ovelheiro.

Outro relato impressionante é o do cão de nome Campeiro. Milton e Bruno haviam filmado este cão em Santa Vitória dos Palmares, por suas características de fenótipo julgaram-no até um exemplar que poderia servir como padreador da raça. Posteriormente Milton retornou para tentar levar o Campeiro para padreador do Canil da Maya.Seu proprietário, um peão de fazenda, relatou aproximadamente o que se segue:- Mandei que o cão entrasse numa toca para pegar uma caça.Ele refugou a primeira vez e após refugar a segunda, puxei da espingarda e acabei com ele.Mandei então o outro cão entrar na toca.Ele foi e voltou ganindo mordido de jararaca, morreu logo em seguida.

Os relatos aqui descritos mostram como as origens do Ovelheiro são antigas e integradas aos costumes de trabalho nas estâncias. Lá o cão é mão de obra valiosa e confirma o dito popular de que Um ovelheiro vale por dois peões.Por esta razão a moldagem do caráter destes cães é extremamente rígida há mais de dois séculos e tem como resultado uma seleção natural de temperamento e obediência, que tão bem definem a raça.

Professor Paulo Azevedo

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