Diferenças entre Ovelheiro Gaúcho e Border Collie

Morro Redondo, 07/10/2012

Normalmente um leigo não sabe diferenciar um Ovelheiro Gaúcho de um Border Collie, isto porque, no geral, são cães morfologicamente semelhantes. Tenho visto muita gente boa dizendo por aí que tem um Border Collie, mas quando pergunto qual a origem do cão recebo respostas vagas do tipo “sempre tive lá fora” ou “vieram da estância do seu fulano”. Geralmente as pessoas confundem cães pretos e brancos, de pelo longo ou médio, com um Border Collie, mas esta raça se diferencia mesmo pela sua postura no trabalho: o corpo agachado; olhar fixo e concentrado; rabo sempre caído entre as pernas e em forma de “J”; sem jamais latir.

Border Collie em posição de trabalho.

A aparência do Border Collie pode variar muito tanto em coloração como em comprimento do pelo. O padrão internacional da raça permite tanto o pelo curto quanto o moderadamente longo e todas as cores sem o predomínio do branco.

Diferentes aparências em Border Collie.

Segundo Alexandre Zilken de Figueiredo (em matéria publicada no site caespastores.com em 21/05/2007) “O Border Collie não deve ser encarado como um animal de estimação. Ele é uma máquina de trabalho”. Ele também afirma que “Trabalhar com um Border é bastante diferente do que trabalhar com outras raças, incluindo os ovelheiros. Por não latir e movimentar-se com extrema precisão, acabam por diminuir o estresse dos animais e realizar as tarefas mais complexas com muito mais rapidez”.

Já o Ovelheiro Gaúcho se caracteriza por apresentar pelos medianamente longos, sendo aceitas todas as colorações, a garupa é reta enquanto que a do Border Collie é arqueada (está é a primeira característica que um bom juiz olha, quando se vai realizar o registro de um exemplar de Ovelheiro Gaúcho). São cães completos, realizando atividades de pastoreio e guarda, sendo utilizados para dar alarme quando da chegada de estranhos ou afugentar animais selvagens que geralmente atacam galinheiros; são também excelentes cães de companhia, pois são animais de temperamento calmo quando não estão trabalhando, portanto são mais versáteis que um Border Collie.

O Ovelheiro Gaúcho é uma raça que foi selecionada para o trabalho do campo, com a missão de acompanhar o peão em suas lides rurais, desempenhando a função de conduzir as ovelhas, buscando-as no campo e levando-as a bretes e piquetes, também guardando-as e protegendo-as de outros animais e, até mesmo, de cães e de pessoas desconhecidas.

Os Ovelheiros Gaúchos de boa genética trabalham com gado e ovelhas de maneira diferenciada, com as ovelhas não latem, arrebanham e conduzem os animais rapidamente sem latidos e algazarra, mas sabem avaliar a situação e se necessário podem latir, empurrar com as patas dianteiras e dar avanços como se fossem morder, fazendo com que as ovelhas mais reticentes e ariscas avancem, cruzando sangas, banhados e entrando nas mangueiras e bretes. Já soube de uma apresentação com a raça Border Collies com ovelhas da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé, que foi por água abaixo, porque as ovelhas utilizadas na apresentação estavam acostumadas com ovelheiros que latiam quando necessário, como os Border Collies não latem as ovelhas simplesmente não se mexeram.

Anteriormente havia afirmado que uma vantagem dos Ovelheiros Gaúchos sobre os Border Collies era a pegada no garrão (mordida que o cão Ovelheiro Gaúcho dá no jarrete da pata posterior do gado bravio, a fim de fazê-lo andar), mas o Sr. Alexandre Zilken de Figueiredo, criador de Border Collies, me afirmou, bons cães desta raça também possuem esta característica. Devo dizer que o Australian Cattle Dog e o Cimarron Uruguaio também trabalham desta maneira.

Todo o peão campeiro sabe o valor de um cão que morde no garrão, pois não há gado por mais bravio, arisco ou empacador que não volte para a tropa e não ande após receber uma mordida no garrão. Já conheci peão que se gabava de que todos os vinte cães Ovelheiros Gaúchos da estância eram pegadores. Já conheci peão que se gabava de que todos os vinte cães Ovelheiros Gaúchos da estância eram pegadores.

Ovelheiro Gaúcho conduzindo e mantendo junto o rebanho (note a posição da cauda e do corpo muito diferentes do Border Collie).

Ovelheiro Gaúcho conduzindo e mantendo apartado o gado.

Outra característica importante do Ovelheiro Gaúcho é a habilidade de retirar o gado do mato com rapidez e eficiência devido às características de latir e se impor por seu tamanho maior chegando muitas vezes a paletearem um novilho para junto do rebanho.

Analisando o custo/beneficio das raças, verificamos que o Ovelheiro Gaúcho realiza as mesmas funções que o Border Collie, além de trabalhar de forma mais eficiente com o gado bravio e conseguir conduzir animais que estão habituados com cães que latem, bem como trabalharem dentro do mato. Outra vantagem, é que como os Ovelheiros Gaúchos não são “máquinas de trabalho” e sim “cães para trabalho”, podem exercer a sua outra característica que é guarda e alarme na volta da casa, não necessitando ficarem presos em canis ou encerras. Já os Borders Collies conforme me informou um criador, durante uma apresentação dos seus cães, necessitam ficar presos, senão ficam o tempo todo trabalhando, juntando patos, galinhas e qualquer animal que esteja por perto. Por fim, após um exaustivo dia de trabalho o Ovelheiro Gaúcho ainda pode oferecer companhia ao seu dono, fazer e receber carinhos, brincar com as crianças da casa e dormir aos seus pés, pois é um cão extremamente fiel e amigo das pessoas da casa, coisas que jamais poderemos esperar de um Border Collie, pois ele não é um animal de estimação.

O problema maior do Ovelheiro Gaúcho é ser uma raça brasileira, selecionada no Rio Grande do Sul e ser pouco difundida fora do estado. Outro problema é o pouco número de criadores registrados. A maioria dos bons plantéis estão nas grandes estâncias, onde os cães ainda continuam sendo submetidos a rigorosos critérios de seleção durante o trabalho. Com certeza, com uma maior difusão, o Ovelheiro Gaúcho vai se tornar uma das raças preferidas para pastoreio.

Eduardo José Ely e Silva

Eng°. Agronomo, Dr. em Biologia Animal

Pecuarista e Criador de Ovelheiro Gaúcho

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